A.T.I.T.U.D.E.

"Não estou a perceber a tua atitude!", "Gostei da tua atitude.", "Fiquei muito surpreendido com a tua atitude!", "Queres explicar-me a tua atitude?", "Vê se mudas essa tua atitude.". No nosso quotidiano são muitas as vezes que usamos ou ouvimos estas mesmas frases. Por exemplo, ultimamente tem sido mais frequente ouvir falar da atitude associado ao racismo. E no caso do Autismo? Qual é a atitude face ao autismo? E face à pessoa autista? Sabemos um pouco mais acerca do impacto que a pessoa neurotipica (não autista) tem na vida da pessoa autista. E normalmente este impacto é bastante visível, seja positivo ou negativo. Por exemplo, quando temos uma atitude positiva pró-autista, a nossa participação, directa ou indirecta na vidas destas pessoas é transformadora. Mas pelo contrário, quando não respeitamos ou aceitamos as diferenças das pessoas autistas e as humilhamos ou colocamos de parte, isso normalmente é devastador e agrava a situação da própria pessoa autista. Mas afinal qual é a atitude das pessoas não autistas relativamente ao autismo e à pessoa autista?

Qual a sua opinião sobre a criação de salas de consumo assistido? Qual o partido político que faz um trabalho melhor na administração do país? A oração deve ser permitida nas escolas? A violência na televisão deve ser regulamentada? Em todas estas e outras questões estou certo que cada um de nós tem algo a dizer. E tendo em conta as questões é bem provável que muitos de nós tenha uma opinião marcada. A forma como essa sua opinião sobre a questão foi sendo construída irá ter um impacto nas suas atitudes face à mesma situação. A forma como se posiciona verbalmente e faz um comentário numa conversa entre amigos em que o tema é precisamente esse. Ou um comentário seu num post que leu numa rede social. Mas também no dia de eleições em que vai votar no partido X ou Y. Ou então quando é realizado um referendo e você participa num qualquer movimento cívico a favor ou contra essa mesma questão. Em psicologia, uma atitude refere-se a um conjunto de emoções, crenças e comportamentos em relação a um determinado objecto, pessoa, coisa ou evento. As atitudes costumam ser o resultado da experiência ou da educação e podem ter uma influência poderosa sobre o comportamento. Embora as atitudes sejam duradouras, elas também podem mudar.


Apesar do impacto que as pessoas não autistas têm nas vidas das pessoas autistas, as suas atitudes em relação às pessoas autistas ainda é pouco compreendida. Muito se fala sobre a importância da intervenção na pessoa autista, seja para a ajudar a melhor a regular as suas emoções e o impacto que estas têm nos seus comportamentos, reduzir a sensação de maior desorganização durante uma situação causadora de maior desconforto, mas também ajudar a pessoa a se compreender e a aceitar melhor, entre outras. Fala-se da intervenção com a família, de como empoderar os pais a melhor lidar com os seus filhos e em certa medida funcionarem como co-terapeutas visto a sua proximidade no quotidiano e ao longo da vida. Mas pouco ou nada se fala sobre a intervenção nas pessoas não autistas. Parece que a mensagem que estamos a passar é de que o autismo é da responsabilidade do.próprio e da sua família. Nós, não autistas, nada temos a ver com isso. Não poderíamos estar mais errados e precisamos de mudar a tendência desta nosso modo de intervir.



Esta é uma importante linha de investigação, visto que essas atitudes são susceptíveis de sustentar o comportamento em relação às pessoas autistas. Uma forma que em Psicologia temos de poder compreender os fenómenos é através da medição dos mesmos, não obstante existirem outros sustentados em metodologias diferentes, nomeadamente qualitativas. No entanto, a utilização de escalas ou questionários, permite-nos de uma forma rápida, poder compreender aquilo que estamos a observar no comportamento humano. E no caso da compreensão das atitudes das pessoas não autistas em relação às pessoas autistas, uma dessas escalas é a Escala de Atitudes Societais em relação ao Autismo (SATAS; Flood et al., 2013).


Este instrumento parece combinar atitudes, intenções e comportamentos em relação a pessoas autistas. Consequentemente, não está claro se a SATAS tem uma estrutura unidimensional, visto que alguns de seus itens dizem respeito a dimensões afetivas de atitudes (e.g., “Pessoas com autismo não deveriam ter filhos”) enquanto outros se referem a comportamentos (e.g., “Eu sentir-me-ia desconfortável a abraçar uma pessoa com autismo ”). É fundamental compreender através destas e de outras questões a atitude das pessoas não autistas tem relação às interações com pessoas autistas e que são categorizadas em três áreas principais: distância social (i.e., a extensão para o qual os não autistas desejam interagir com pessoas com autismo em várias situações), integração académica (i.e., crenças

em relação à inclusão de crianças com autismo no ensino regular) e direitos privados (os direitos das pessoas autistas). Mas também é importante poder compreender o conhecimento que a pessoa não autista tem sobre aquilo que são as causas do autismo e os resultados comportamentais derivados desta condição. Dada a grande variabilidade nas crenças do público em geral sobre as causas do autismo, algumas das quais estão errados

(e.g., vacinas, dietas sem glúten, etc.) e o pequeno número relativo de comportamentos aparentemente associados e consistentes com comportamentos do autismo, é percebido que a adição de itens deste tipo de conhecimento seria importante..


Assim, as questões a serem usadas para compreender a atitude das pessoas não autistas em relação às pessoas autistas de acordo com a Escala de Atitudes Societais em relação ao Autismo são: 1) As pessoas autistas não devem ter relacionamentos românticos; 2) As pessoas autistas devem ter a oportunidade de ir para a faculdade; 3) As pessoas autistas não devem ter filhos; 4) As pessoas autistas devem ser institucionalizadas para sua segurança e de outras; 5) Se uma instalação para tratar pessoas autistas abrisse na minha comunidade, eu consideraria mudar; 6) As pessoas autistas são incapazes de viver por conta própria; 7) Eu teria medo de estar perto de uma pessoa autistas; 8) Uma pessoa autista é um fardo emocional para sua família; 9) Eu ficaria confortável sentado ao lado de uma pessoa autista na mesma aula; 10) Uma pessoa autista é um fardo financeiro para sua família; 11) As pessoas autistas devem ser encorajadas casarem com alguém autista; 12) As pessoas autistas são incapazes de estabelecer relacionamentos e expressar afecto; 13) As crianças autistas devem ser totalmente integradas em aulas regulares; 14) Eu ficaria desconfortável a abraçar uma pessoa autista; 15) As pessoas autistas não conseguem entender os sentimentos de outras pessoas; 16) Os alunos autistas que são integrados em salas de aula regulares são uma distração para alunos sem autismo; 17) As pessoas autistas precisam de suporte adicional para ter sucesso no trabalho; 18) As pessoas autistas tendem a ser violentas; 19) Integrar crianças autistas em salas de aula de ensino regular representa um risco de segurança para crianças sem autismo; 20) As pessoas autistas precisam de ajuda para comunicarem com outras pessoas; 21) Todos as pessoas autistas demonstram comportamentos repetitivos, como balançar ou abanar os braços e as mãos; 22) Eu ficaria confortável em dividir o escritório com um colega de trabalho com autismo; 23) Eu me sentiria confortável sentado ao lado de uma pessoa autista no cinema; 24) Eu me sentiria confortável tendo uma pessoa autista a viver no mesmo prédio que eu; 25) Eu estaria confortável tendo um amigo autista; 26) As pessoas autistas são capazes de viver uma vida normal (ou seja, com trabalho, casa, família, etc.).


Estas 26 questões são aquelas usadas para medir as atitudes das pessoas não autistas em relação aos autistas. O instrumento em si carece de reflexão em relação aos itens e à sua estrutura factorial. Mas apesar disso mostra-nos aquilo que devemos considerar no que são os comportamentos da população em geral em relação ao autismo e aos autistas. Algumas questões parecem mais evidentes que outras. Mas todas elas provocam um grande impacto nas pessoas autistas e na sociedade em geral também. Já o disse em outros momentos e volto a chamar a atenção. As atitudes de muitos de nós não autistas, o nosso desconhecimento, ignorância que acaba por se transformar em comportamentos de humilhação, negligência, bvullying e maior isolamento social para as pessoas autistas traduz-se num impacto ainda mais no orçamento da saúde e da segurança social. A Perturbação do Espectro do Autismo é uma condição que ocorre ao longo do ciclo de vida, e quanto mais todos nós, não autistas, continuarmos a dificultar a vida das pessoas autistas pior será, para todos. Se não quer mudar a sua atitude sabendo que estará a provocar uma melhoria na qualidade de vida da pessoa autista. Então mude a sua atitude pensando que está a melhorar a sua condição económica e a do seu pais. A atitude é sua, seja responsável.

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