Borboletário

Quem não se lembra de em criança andar a correr de forma despreocupada atrás das borboletas? Olha esta, gritava o Raúl (nome fictício). Uma Papilio machaon. Não é nada, disse Bárbara (nome fictício). É uma Ephiclides feisthamelli. Nem penses Bárbara. A asa inferior da Epliclides é mais alongada que a Papilio! E quando já suficientemente cansados da brincadeira e repousávamos sentados no parapeito do muro tínhamos a felicidade de ver uma das borboletas pousar na nossa perna? As borboletas são um dos insectos mais facilmente reconhecido pelo olho humano. Confunde-se mosquitos com melgas, moscardos com besouros. Mas não as borboletas. Mesmo que haja quem venha dizer que aquilo é uma traça e não uma borboleta, é preciso reconhecer algo de único e belo nas traças. Ultimamente tenho visto cada vez menos. E não sou único. As borboletas são particularmente sensíveis às alterações climáticas e por conseguinte são excelente indicadores da qualidade dos habitats naturais e da diversidade. Desde cedo na escola que se ensina às crianças o ciclo de vida das borboletas. E que as borboletas e as traças se desenvolvem a partir de um processo de metamorfose. Desde o ovo posto pela borboleta adulta, e que de seguida passa a larva ou lagarta e depois a pupa dentro do casulo, tal como se pode ver nesta fotografia, até finalmente chegar à fase adulta, precisamente aquela em que alguns de nós se entretêm a correr atrás. A borboleta cauda-de-andorinha tem uma das maiores envergaduras, diz Raúl. Eu continuo a dizer que a Melanargia ines é das mais bonitas, diz Bárbara. E porque é que me fui lembrar das borboletas num post para um site que fala sobre Autismo no adulto? Porventura porque não consigo deixar de pensar no autismo quando penso no ciclo de vida das borboletas. Não obstante todos nós termos aprendido sobre este ciclo de vida na escola, continuamos frequentemente centrados na última fase, na borboleta adulta. E não em como esta chegou até aqui. Da mesma forma quando olhamos para os casulos pendurados nos tectos ficamos com a sensação de que são todos iguais. No espectro do autismo também são todos diferentes, ainda que todos tenham a mesma condição. E todos eles têm, tal como as borboletas, uma grande sensibilidade às alterações climáticas. E à forma como as pessoas as tratam. Nem penses em agarrar essa borboleta com as mãos, gritava o Raúl da outra ponta do corredor da escola. Ficaram todos a olhar para ele enquanto ele procurava construir uma rede para a apanhar com o lenço emprestado da professora. O Raúl e a Bárbara têm um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, nível 1. Ambos têm 9 anos. São da mesma turma, do 3º B. Mas na sua escola há outras crianças com a mesma condição, mas com características bastante diferentes, tal qual as borboletas. A Amy (nome fictício), veio este ano para a escola, é Inglesa. Tem uma Perturbação do Espectro do Autismo e uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção. Começou este ano a fazer Concerta. Está no 4º ano. Tem sido difícil para si fazer amigos. A Clara (nome fictício) tem 8 anos. Tem uma Perturbação do Espectro do Autismo, nível 2. Começou a falar apenas aos cinco anos e meio. O Raúl diz que há outros meninos na sua escola que também parecem ter algumas características semelhantes às suas. Somos todos borboletas, diz Bárbara. O Raúl e ela desataram à gargalhada. Meninos, mais baixo, dizia a professora enquanto colocava de novo o lenço que o Raúl lhe tinha devolvido. O Raúl, a Bárbara, a Amy, a Clara, todos eles têm uma Perturbação do Espectro do Autismo, mas todos eles apresentam caracetrísticas bem diferentes. E todos eles chegarão à fase adulta, tal como as borboletas. E no caminho também todos eles passarão por um conjunto de metamorfoses.


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