Escola de verão

Escola de verão é algo que soa a estranho para muitos. Principalmente porque costuma ser o período em que se encontram de férias. Mas o conceito não é novo, e há por exemplo, muitas Universidades que o aplicam como parte dos seus programas Doutorais, mas também já há quem abra as portas da Universidade nesta altura para a preparação dos alunos vindouros. Pode parecer descabido haver esta preparação para a entrada na Universidade, tendo em conta que muitos se perguntarão - Não é para isso que deveria supostamente servir o Ensino Secundário? O certo é que todos os anos, os jovens que integram o Ensino Superior queixam-se, assim como os seus pais que os veem sofrer e a baixar o seu rendimento académico. Assim como os docentes universitários que ficam com os cabelos em pé com alguma da impreparação de muitos deles. A Universidade enquanto espaço da diversidade, acolhe alunos de proveniências culturais diferentes, mas também com um perfil de funcionamento diverso. A entrada de pessoas portadoras de deficiência no Ensino Superior é cada vez mais uma realidade crescente e os alunos com uma Perturbação do Espectro do Autismo vão procurando cada vez mais prosseguir o seu caminho por aqui. No entanto, se a entrada na Universidade é sentida por muito como um momento de maior ansiedade. No caso dos alunos autistas esta situação é sentida como tendo uma maior expressão e impacto. Esta questão na entrada, mas também um conjunto de outras situações que são esperadas ao longo do ano lectivo leva a que muitos dos profissionais que trabalham com pessoas autistas a procurarem criar espaços de transição mais adequados. E aqui surge a necessidade de criar uma Escola de Verão para jovens autistas que vão fazer a sua transição para o Ensino Superior.

A transição do Ensino Secundário para o Ensino Superior nem sempre é fácil para muitos estudantes que o procuram. Além do desafio educacional dos requisitos de entrada está a necessidade de os alunos desenvolverem níveis de independência na gestão do quotidiano, seja nas residências universitárias, mas também para aqueles que continuam a viver com os pais, finanças, alimentação e atender ao aumento das exigências académicas em relação ao Ensino Secundário. Há muito que se argumenta que a construção de redes sociais representa um dos grandes desafios, pois a transição da escola para a universidade pode envolver deixar casa, família e amigos, e representar uma grande mudança social para muitos jovens, especialmente no seu primeiro ano. Esta transição do primeiro ano normalmente exige que os alunos se tornem social e academicamente integrados e tem sido operacionalizada pela seguinte definição de bem-estar psicossocial nos alunos como: Equipado para lidar com as exigências de funcionamento independente que acompanham a transição universitária, incluindo o desenvolvimento de um cronograma académico, a negociação de um novo e muitas vezes complexo mundo social, e o desenvolvimento da motivação interna para acordar num momento razoável, assistir às aulas e acompanhar as actividades e trabalhos propostos.


Muitos dos desafios académicos, sociais e quotidianos podem parecer ampliados para os estudantes autistas que fazem essa transição. A Perturbação do Espectro do Autismo é uma condição de neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades na comunicação social e de interação, e um padrão restrito, repetitivo ou estereotipado de comportamentos, interesses e atividades. Além das características centrais do autismo, até 70% das crianças e jovens também experimentam condições de saúde mental que ocorrem como a ansiedade e depressão. Além disso, ocorrem outras dificuldades comuns que incluem hipersensibilidade ao som e à luz, e maiores dificuldades ao nível das Funções Executivas. Esta miríade de desafios enfrentados pelos estudantes autistas tem um impacto significativo na transição dos alunos e no ajuste bem-sucedido na vida universitária. Por exemplo, as dificuldades na comunicação social podem significar que o ambiente social mais complexo na universidade se torne difícil de navegar. Ou uma preferência por rotinas, certeza e outras facetas do domínio dos comportamentos repetitivos no autismo também pode significar que os alunos estão menos bem equipados para se adaptar às mudanças nas rotinas quotidianas e na vida. Além disso, os prejuízos causados pelo funcionamento mais comprometido das Funções Executivas também podem sugerir que o planeamento flexível futuro, a gestão do tempo e as competências organizacionais podem ser particularmente problemáticas para uma grande proporção de jovens autistas . Por isso, é importante que os estudantes autistas que procuram se candidatar à universidade considerem a questão de divulgar ou não seu diagnóstico, bem como quando e a quem devem divulgar, o que pode influenciar o acesso a vários tipos de apoio disponíveis na universidade que podem amenizar algumas dessas questões.


E como tal a Academia que continua a receber alunos com diferentes características, culturas, sociais, intelectuais e desenvolvimentais, sente necessitar continuar a sua contínua mudança. Este pensar-se a si enquanto espaço de partilha de conhecimento e de experiências, a Academia também necessita de construir espaços e processos que se adaptem a um conjunto diverso de pessoas com um processamento de informação igualmente heterogéneo. E o conjunto de todos os alunos e dos seus respectivos perfil de funcionamento é aquilo que pode ser enquadro no que se designa como Neurodiversidade.


A Escola de Verão para os alunos autistas que procuram ingressar na Universidade precisa então de compreender vários aspectos da vida universitária, incluindo académicos (e.g., palestras), sociais (e.g., clubes e sociedades) e vida diária (e.g., comer na cantina universitária e permanecer na residência universitária). O feedback quantitativo e qualitativo dos alunos que são preparados a este nível são positivos e promissores, mostrando uma redução significativa numa série de preocupações relacionadas à transição para a universidade após o programa, bem como um maior optimismo geral relacionado ao início da universidade.


A Escola de Verão para os alunos autistas pode ser composta pelo pernoitar duas noites na residência universitária no campus universitário, e um currículo entregue ao longo de 3 dias. O currículo pode ser projetado para preparar os estudantes autistas para a vida universitária típica e promover o autocuidado e o bem-estar quando na universidade. Ao chegar, cada aluno deve receber um pacote contendo um cronograma detalhado e um breve esboço do conteúdo da sessão, bem como as informações impressas da sessão. As sessões devem ser estruturadas em três vertentes: trabalho, descanso e brincar. As sessões devem incluir a introdução dos alunos à natureza da vida académica na universidade, como vivenciar uma palestra típica, socializar os alunos para o papel de funcionários e tutores, aceder ao apoio estudantil e divulgar o seu diagnóstico (tema 'trabalho'). Deve também haver sessões sobre redução do estresse, gestão da ansiedade em determinados contextos e o papel do bem-estar físico com informações sobre instalações desportivas (tema 'descanso'). A vertente das sessões sobre a parte lúdica deve incluir informações sobre clubes e sociedades na universidade, experimentar refeições partilhadas no campus, saídas sociais e oportunidades de socialização informal. As sessões devem ser preparadas e realizadas pelo corpo académico da Universidade em conjunto com o corpo clínico constituído por Psicólogos. Deve também ser possível haver um período em que um actual ou antigo aluno universitário autista possa falar acerca da sua experiência pessoal e académica. Podem igualmente ser criados alunos embaixadores que recebam treino adequado sobre a Perturbação do Espectro do Autismo e que possam servir como tutores neste processo de transição e ao longo do seu percurso universitário.


Sentimos que desta forma a Universidade, seja no processo de transição, mas também ao longo do seu percurso, vai acompanhando a vida destes seus alunos, sejam autistas ou não, e crescendo de igual modo com a partilha de experiências entre todos. Não é assim que uma Universidade deve ser?

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