Recruta-me se souberes

Os meus pais dizem que eu sou doutorado em cursos, diz o Carlos. Tenho 34 anos e nunca trabalhei. Já enviei 147 currículos. Tenho apontado num registo que fiz. Quais as ofertas, empresas e datas em que fiz o envio do currículo. Nunca fui chamado para nenhuma destas ofertas. Aquilo que me entristece é que nem sequer me disseram o porquê de não me chamarem. Eu até seria capaz de compreender. Há pessoas mais válidas e competentes do que eu. Mas também sei que há um lugar para mim, desabafa Carlos. Foi diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo aos 4 anos. Na altura ainda se chamava de Síndrome de Asperger. Fez várias terapias ao longo dos anos. Começou com Terapia da Fala e Ocupacional. A linguagem e as hipersensibilidades sempre foram uma dificuldade. As dificuldades na linguagem está ultrapassada, as questões da sensorialidade ainda não. Ao longo da sua vida, principalmente na escola até ao 12º ano foi ouvindo que as pessoas vão à escola para poderem vir a ter uma profissão. E que devem continuar os seus estudos a nível do Ensino Superior para garantir essa possibilidade. Há muita coisa que fui ouvindo ao longo dos anos, diz Carlos. Mas também há muita coisa que é dita e que depois não se verifica, conclui. Carlos sente que fez tudo o que lhe foram dizendo para fazer e que não compreende porque é que as coisas não acontecem. As pessoas não me conhecem, nem às minhas competências, refere. Como é que podem saber se eu sou ou não uma pessoa capaz para desempenhar aquelas ou outras funções, questiona. A situação do Carlos poderia ser a situação da Inês, do Júlio, António, Vânia, Catarina. Os nomes de jovens adultos e adultos autistas, homens e mulheres válidos acumulam-se. Ficam em casa à mercê da frustração e do agravamento dos seus sintomas e isolamento social. Perdemos todos. As famílias perdem os sonhos que tiveram para os seus filhos. As empresas perdem a oportunidade de crescer e inovar com todas a neurodiversidade existente. Mas principalmente eles perdem-se. Que sentido faz que as pessoas autistas não sejam contratadas? Não sabem trabalhar? Não são eficientes? Vão fazer a empresa perder dinheiro? Gerar más relações com os colegas? Talvez todos nós, neurotipicos, não autistas, precisemos de reflectir aquilo que fazemos e a autoridade com que o fazemos. A ignorância que muitos de nós tem em relação ao Espectro do Autismo e a inflexibilidade em não querer dar uma oportunidade em saber, coloca a vida de milhares de pessoas em risco. Pensem que 1 em cada 100 adultos tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E que cerca de 80% destas pessoas não vive de forma independente. E que 60% não tem um contrato de trabalho. Não temos o direito. Ninguém tem o direito em determinar que esta ou aquela pessoa não tem competência para trabalhar. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é clara. A Constituição da República é evidente. A mais variada legislação a nível nacional e directivas comunitárias não deixa margem para dúvidas. Continuarmos a pensar que são os outros que tem de resolver. Que os responsáveis políticos é que têm de tomar uma decisão é perpetuar todo este sofrimento. O Carlos pediu-me que eu vos transmitisse isso.


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